Pelo Empoderamento dos Filhos à Mesa

Pelo empoderamento dos filhos à mesa

Nas férias de janeiro, viajamos alguns dias para Tiradentes, cidade histórica no interior de Minas Gerais. Recomendo a visita à cidade e seus arredores. Há muito a ser visto.

Entre tantas imagens que capturei com os meus olhos, uma me foi particularmente marcante:

Na pousada onde estávamos, uma família, composta por pai, mãe e filho com cerca de 12 anos, toma café da manhã juntos. Pai e mãe já estavam à mesa quando o garoto chegou. Ele sentou e imediatamente a mãe se levantou e se dirigiu até o bufê. Pegou um pão francês e uma manteiga, devidamente arrumados num prato de sobremesa. Ela voltou à mesa da família e, em pé ao lado do filho, cortou o pão, passou manteiga e deu ao garoto, que colocou na boca sem esboçar nenhuma reação. Enquanto essa cena se desenrolava, o pai, sentado do lado oposto do adolescente, olhava para a tela do celular, absorto. A mãe se sentou.

Fiquei me perguntando:
1) Por que o menino, aparentemente, sem nenhum problema motor cognitivo, não foi buscar a própria comida?

2) Por que a mãe teve de ir ao bufê de comidas pegar a comida do filho adolescente?

3) Por que o pai não fez alguma intervenção, proibindo a mãe de fazer algo que era de responsabilidade do garoto e incentivando o filho a escolher o que desejaria comer?

Jamais saberei, claro.

Mas, como aluna de psicanálise, tenho escutado muitas explicações sobre a importância da presença do pai/companheiro(a) como a “lei”, o “corte”, na relação entre mãe e filhos.

Sem a “lei do pai” *, essa mãe talvez continue cortando pães até os 30 anos do filho…

Pelo empoderamento dos filhos à mesa

Pelo empoderamento dos filhos

O movimento dessa mãe me pareceu comum e bem automático, tanto que me fez pensar sobre a postura  clássica de algumas mães que é o “deixa que eu faço porque você não sabe, porque eu sei o que é melhor para você”.
Eu já caí na armadilha da “suprema sabedoria materna”. Durante anos ouvi a frase “Ninguém melhor que a mãe para saber como o filho gosta de…” e acreditei nela. De tanto acreditar no poder materno, será que as mães demoram a acreditar na capacidade dos filhos e filhas e se virarem?

Fui “suprema sabedoria”, principalmente, à mesa. Principalmente durante as refeições, nas quantidades de comida que os meninos deveriam comer , na falta de habilidade deles para o manuseio dos talheres.

O resultado de tanta “suprema sabedoria materna” pode resultar em filhos inseguros, sem iniciativa, chamados, muitas vezes, injustamente, de preguiçosos, folgados e espaçosos.

Empoderar os filhos à mesa, confiando que eles são capazes, desde pequenos, de escolher tanto o que desejam comer quanto a quantidade que desejam comer é o primeiro passo que mães e pais dão rumo à longa jornada em direção ao que há de mais precioso em nossas vida: nossos filhos serem sujeitos autônomos, livres para escolher ir e vir, para poder escolher entre o amarelo ou o azul, o bolo de cenoura ou a torta de frango. Ou não comer nada. Fazer escolhas sozinho(a), sem precisar mandar um whats para a mãe a cada passo que precisa ser dado.

Pelo empoderamento dos filhos à mesa

Se você conhece alguém que é insegura sobre a capacidade dos bebês de assumir responsabilidades, de escolher, de entender a orientação, de cumprir combinados, sugiro que assista ao vídeo abaixo para começar a acreditar no contrário:

Este texto faz da campanha do Comida Boa Muda Tudo Pelo Empoderamento dos Filhos à Mesa. Que todas as crianças tenham o direito de escolher o que comer e na quantidade que desejam em todas as refeições.

Um beijo e comida boa para todo mundo!
Patricia

 

*Lacan explica que o pai da “Lei do Pai” não é, necessariamente, o pai biológico, o homem, mas alguém que faça o corte no complexo de Édipo.

8 Comments

Beth Van - Lume

Adorei o texto.
Qual a idade que tenho que ensina a se servir. tenho 2 filhos, Matheus Kaike de 9, Maria Valentina de 1. O Kaike tem dificuldade de alguns alimentos, já Valentina come muito bem alimentos como: frutas, verduras, e outros…

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Patricia Cerqueira

Oi Beth.
Obrigada.
No dia a dia da sua casa, vc percebe as habilidades dos filhos. Difícil determinar a idade certa.
Kaike já deve conseguir se servir sozinho em todas as refeições, colocar no próprio prato e na quantidade que ele quiser as opções que os adultos prepararam. A transição entre ele, e não um adulto, se servir precisa ser suave, amorosa e incentivadora.
Vc pode pedir ajuda a ele, por exemplo, fazer o pratinho da irmã. Ele colocar a quantidade.
Valentina ainda não come sozinha, mas já deve pegar finger foods e colocar na boca, certo? Esse processo de levar a comida à boca sozinha com as mãos e depois com os talheres é contínuo. Lá pelos 3, 4 anos o processo de servir já pode começar a ser incentivado. Talvez começando pela salada.
Mas essas indicações São apenas sugestões.
Beijo

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Lele

Ai ai ai
veio bem a calhar pois me pego colocando (AND cortando) a comida no prato dos meus pequenos (já não tão pequenos).
Vou progredir nessa direção e te conto como me saí…
bjs
Lele

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Patricia Cerqueira

Eu também, Lelê. Às vezes era piloto automático, em outras era por questão de tempo. Acho que de vez em quando tudo bem, né?!
bjs e obrigada por comentar.

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Gabi Miranda

A-DO-RE-I!
Pati, não sei se é o caso, mas agora como mãe de dois, um sendo menino e menina, me pego pecando na comparação. A Stella chega chegando e pegando o que quer comer. Ela só tem 2 anos e 6 meses. Se ela já conseguisse abrir a geladeira, abriria. Ela se posta em frente a geladeira e fica batendo até abrirmos e aponta para o que quer comer. Juro! Já com o Benjamin as coisas são diferentes. Ele até fala o que quer, mas espera ser servido. Marido diz que ele puxou a mim (preguiça). Mas não é bem preguiça. Eu amo ser cuidada (é minha linguagem do amor – já leio as 5 linguagens do amor?! então… rs). Eu nem faço muito nesse sentido pelo de servir o Ben. O Piffer acaba sempre servindo nós dois. Qd comemos fora, nós levamos o Benjamin até o local e ele vai escolhendo o que quer comer (como é feito na escola, por conta do tamanho dele ainda). Mas enfim, vejo que o Benjamin é mais dependente em vários aspectos e aí entra tb a questão da Stella ter chegado e o assunto se prolonga….rs
Simplesmente amei o seu post. E quero participar desse empoderamento. Não só à mesa, mas em outros aspectos. Pois percebo que fazemos muita coisa que poderíamos deixar eles fazerem. beijo

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Patricia Cerqueira

Gabis,
Também fazia comparação entre Samuel e Miguel. Mig andou com 10 meses. Samuel tinha preguiça até para engatinhar, que dirá andar. rsrsrs. As comparações entre filhos parece inevitável até o momento que cai a ficha que somos indivíduos únicos, cada um com sem tempo, suas habilidades, formas de se expressar, cada qual com sua leitura de mundo. É difícil se desapegar das comparações, mas conforme eles vão crescendo, a ficha vai caindo a gente vai se percebendo comparando menos. No seu caso, desconfio que esse problema da falta de intervenção do pai na relação mãe e filho não vai acontecer. Vc ganhou na loteria, amiga! Conserve seu Piffer com muita torta de limão.
Beijos e obrigada por comentar.

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Milene Massucato

São coisas que a gente e não a escola precisa ensinar. Dá trabalho, muito. Faz sujeira, muita. Mas faz parte do processo de se ensinar individuos conscientes de suas escolhas.
Parabéns pela reflexão!!!

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