O que aprendi com os feirantes

Sempre achei feira livre de rua algo medieval. Um horror. Mas faz um ano que tenho ido à feira. Toda quarta-feira. Nunca tinha assumido essa tarefa. Sempre delegava a alguma empregada por falta de tempo, por questões ideológicas, por falta de intimidade com os alimentos.

Hoje, porém, a realidade da vida se impôs e passei a desfilar meu corpinho entre frutas, verduras e legumes.

Explico uma coisa: já fiz feira em sacolão e em supermercado. Em nenhum dos dois a qualidade dos alimentos, principalmente das frutas, é igual à da boa e velha feira de rua.

Há um outro fator que só existe na feira: a aula que os feirantes dão para os clientes sobre como aproveitar muito bem os alimentos.

Gente, fiz amizade com batateiro, ceboleiro, verdureiro, fruteiro, legumeiro – para desespero do maridón.

No sacolão, a gente até consegue um funcionário legal para explicar qual melhor melão levar, se o abacaxi tá bacana. Mas em supermercado, g-zuis, nunca vejo viva alma e acabo levando fruta azeda, batata ruim, tomate de quinta categoria. Quando tem, tá de mal com a vida e comigo. Um dia cheguei a dar uma respostada a um funcionário bem do mal-educado do Carrefour.

Feira, não. Você pisa na alameda e é um tal de meu amor pra cá e pra lá. Pode ir de chinelo de dedo e bobis no cabelo que será a mais linda da feira. Ó, coisa boa!

Bom, chega de lero-lero e vamos aos fatos:

o que aprendi com feirante, coloquei em prática e funciona

– Comer fruta de época, ever. São doces e mais baratas mesmo, caso do melão que poder chegar a R$ 15 o quilo na entressafra.

– Lavar fruta só quando vai consumir. Não vai comer hoje? Guardo do jeito que chegou. Não mexo nela. Se a fruta é delicada, como morangos, uvas, deixo na geladeira como veio da feira, embalada. Só mexo (leia-se: lave) na hora que vou usar.

– Lavar saladas, secar, guardar num tupervare na geladeira. Gente! Meus problemas com: “quem vai lavar a salada?” se acabaram. O chato é o dia que você precisa lavar tudo, mas depois é tudo lindo, rápido. Agrião, rúcula, alface americana, brócolis duram até uma semana se estiverem bem sequinhos e bem fechados. Para secar, eu coloco sobre papel-toalha em cima da mesa da cozinha (e prendo o gato na vizinha). Já coloquei para secar sobre toalha, pano de prato, na janela. Não deu certo. Papel-toalha e tupervare… e todo dia tem salada na mesa.

– Abóbora: já peço para descascar e cortar na feira. (O sujeito que cunhou a frase Descascar abacaxi nunca descascou uma abóbora. É uma dureza). Fica no saquinho. Se percebo que vou demorar para usar, vai para o freezer do jeito que chegou. Se levar, danou-se! Lave depois de descongelar.

– Mandioquinha: se percebo que vou demorar para usar, descasco, coloco no saquinho e freezer!

– Ervilhas frescas: idem!

– Cebola: quanto mais macia, mais doce! Adorei essa dica do ceboleiro português!

– Abacaxi: se levo descascado para casa, tiro da embalagem, viro num tupervare, tampo e mantenho na geladeira. Se o abacaxi estiver muito maduro, leve para casa e coma, de preferência inteiro. Não adiantou colocar em recipiente fechado. No dia seguinte, pontos marrons começaram a aparecer.

– Hortaliças: se tiveram com raiz, plante!

– Salsão: tiro a cabeleira, lavo e guardo no freezer para virar caldo. O talo coloco num saco e guardo na geladeira sem lavar, o que faço só na hora de usar! Dura umas três semanas!

– Alho porró: idem ao salsão

– Macarujá: não deixe ficar enrrugadérrimo, feito uva passa. Antes de chegar nesse ponto crítico, tiro as sementes e a “baba”, guardo num pote de vidro (os de plástico deixam gosto). Dura muito tempo, quase um mês. Ah, e os mais pesados são os mais doces #fato

Milho verde: se vai fazer cozido na panela, tipo de praia, escolha os bem branquelos. As espigas muito amarelas servem para bolo. (Essa vai a melhor aula. Sempre tentei fazer milho cozido de praia em casa e NUNCA consegui porque levada as espigas bem amarelinhas, quase laranjas. Depois de cozida, fica tudo duro e ruim! Agora, depois da aula do José, dos legumes, só tem espiga molinha e adocicada).

Enfim, a dica de ouro é conversar, conversar, contar o que pretende fazer, perguntar se é fresco ou da feira de domingo, pois há produtos de feiras de dias anteriores, em geral os mais baratos e nem sempre estão no ponto. Além disso, comprar apenas o que vai consumir e guardar em geladeira o que não terá consumo imediato. Não deixar saladas e outras folhas úmidas dentro dos saquinhos, pois elas queimam.

E, claro, virar freguesa. Isso faz uma enorme diferença. O feirante te chama pelo nome e você fica sabendo até que a mulher dele tá grávida do terceiro filho e deixando ele maluco.

Vá na feira. É muito melhor, mais divertido e mais barato (10 ovos caipiras no Pão de Açúcar custam 5,49. A dúzia do ovo caipira na feira custa 5 reais!).

Ah, e leve as crianças of course. Elas vão comer todas as frutas possíveis e se divertir com a algazarra.

Beijos,

Patricia

Tem mais dica de feirante em outro texto meu que eu escrevo sobre como aproveitar melhor o repolho e a abobrinha.

11 Comments

Aline

Como eu gosto de comer e de cozinhar sempre gostei de feira. Para mim, além de ser uma diversão é o lugar onde a gente acha os melhores produtos, mais fresquinhos e mais maduros. No mercado é tudo “de vez”, ou seja, uma bosta! E por incrível que pareça, na feira, nem sempre é mais caro do que no mercado. A maioria dessas dicas eu já sabia, mas outras eu vou anotar no caderninho…rs… pois são valiosas. Afinal, me dá até tristeza ver legumes e verduras estragarem na geladeira quando não dá tempo de usar.
Bjus!

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Sara

Poxa, muito bom mesmo! Pena que perto da minha casa não tem feira. Só no supermercado mesmo. Mas continue postando essas dicas aqui!

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Leila Dato

Amei o post Patricia! Meu marido que vai na feira aki em casa… algumas coisas ele sabia, como o das frutas da época.. Vou tentar passar a ir.. O de lavar a salada eu já fazia aqui em casa. Inclusive a D. Esmeralda, uma empregada-mãe que tive, me ensinou a centrifugar em um recipiente próprio (centrifuga de saladas) e depois colocar na tigela forrada com papel toalha. Bjs

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sonia pimenta

adorei a materia..vc escreve bem “claro” e indico para minhas filhas e pras amigas delas..q sao casadinhas de novo..mtas dicas legais..parabens!! bjbj

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Fabiana

Ô dona Patrícia, mas que post perfeito. Adorei as dicas. Adorei. E eu sempre curti muito feira, aquele clima, as cores,os aromas. Mas nunca mais fui. Pena.

Bjos.

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Comer para Crescer

Fabi,
Mas as dicas valem pra qdo a gente compra em sacolão, supermercado, mercadão municipal.
brigadinho.
bjs

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Irene

Minha querida! quanta experiência boa.. Realmente feira é um lugar para vc encontrar uma variedade muito grande de produtos, apesar que eu sinto falta de alguns produtos que tinhamos na minha terra e é super difícil de encontrar em São Paulo. Por exemplo manga espada. Algumas pessoas nãio gostam por causa dos fios que ela tem, mas o sabor é incomparável.
Saudades de vc.
bjs

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Mari

Bem que eu queria uma feira enorme aqui no meu gueto. Eles até tem os farmers markets da vida, mas em geral são produtos orgânicos e caros. E nem preciso dizer que não tem pastel com caldo de cana né. Que que eu vim fazer aqui mesmo?

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Maria Aparecida Dantas

Dica para milho de praia: Forre a panela com algumas palhas do milho e coloque um pouco de açúcar.

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