O poder do discurso materno na cozinha

Um dos livros mais marcantes que li este ano foi o Poder do Discurso Materno, da terapeuta argentina Laura Gutman. Ela explica como as frases ditas pelo adulto que cuida das crianças, que, na imensa maioria das vezes, é a mãe, podem moldar os filhos – para o bem ou para o mal.

Poder do discurso materno

Laura prova, com relatos de casos, o tamanho da força das frases maternas na personalidade dos pequenos.

Impossível não me ver no livro, tanto como mãe quanto como filha. O quanto a minha fala é determinante nas ações e nas personalidades dos meus filhos e o quanto as frases da minha mãe, ditas quando eu era criança, me afetaram.

Foram determinantes até na construção do meu paladar. Eu não gosto de caju porque a minha mãe não gosta de caju. Aliás, eu nunca experimentei caju. Tenho medo porque crescei ouvindo ela contar o quanto passou mal depois de comer a fruta ou tomar o suco. Ou os dois juntos. Não lembro direito.

Não gosto de coentro porque minha mãe não gosta de coentro. Também não gosto de jiló porque minha mãe nunca gostou de jiló.

Mas a gente cresce e passa a ter controle da própria história. Agora sei que gosto de jiló. Comi quando eu tinha quase 30 anos. O legume não tinha aquele sabor “insuportavelmente amargo” como ouvia minha mãe dizer. Ela ainda fazia uma careta para pontuar a sua aversão ao legume.

O medo ao jiló ainda não foi totalmente superado. Só consigo experimentar na forma de chips, bem frito, bem saquinho, bem fininho e bem salgadinho. Também ainda não fiz nenhuma receita com ele. Já comprei algumas vezes, mas acabei deixando o coitado apodrecer na gaveta das hortaliças, na geladeira.

Acho que Freud deve explicar isso, com certeza!

Passei a comer coentro há muito pouco tempo. Há uns seis meses, mais ou menos. Morria de medo do sabor da hortaliça, influenciada pelas frases e caretas da minha mãe, descrevendo o terrível sabor da “verdurinha”, que de fato é bem forte e marcante, mas não é “péssimo”. Usado com parcimônia, ele traz um sabor bem especial para alguns pratos. Por exemplo, é impossível comer guacamole sem coentro, assim como moqueca de peixe. Mas, a moqueca da minha mãe, não tem coentro.

Aos poucos, estou superando o poder do discurso da minha mãe na cozinha e criando a minha própria biografia humana entre garfos, facas e temperos.

Afora coentro, caju e jiló, minha mãe sempre comeu de tudo. Sorte minha que dona Maria Helena tinha pouquíssimas restrições alimentares. Deve ser difícil a vida de quem cresce com mães de paladar bastante restrito, daquele quase infantil, que não gosta de nada. É, digamos, uma influência e referência alimentar bem complicada.

Sorte também dos meus filhos, pois estou aprendendo, como mãe, a maneirar no meu discurso. Falo com certa constância sobre quanto Miguel é chato para comer. Preciso me policiar mais e criticá-lo menos. Quanto mais reforço essa observação, mais ele veste o figurino do personagem da criança que não come nada. Depois de ler Laura Gutman, sei que não é justo com meu filho.  Como ela escreve:

Em princípio, vamos (as crianças) continuar pensando, sentindo e interpretando a vida de um ponto de vista emprestado – habitualmente o ponto de vista de um adulto importantíssimo. Na maioria dos casos, nos referimos à mamãe. Então, continuaremos alinhando nossas ideias e nossos preconceitos em relação direta com o ponto de vista de nossa mãe. “Desse” discurso dependerá se vamos nos considerar bons ou muito ruins, se acreditamos que somos generosos, inteligentes ou bobos, se somos astutos, fracos ou preguiçosos. É importante notar que essas definições são semelhantes ao que disseram papai e mamãe durante nossa infância.

Com olhar mais atento, vou diminuindo minhas “conclusões” sobre meus filhos e escutando as demandas com ouvidos mais generosos. Tentando não pré-julgar. Tem dia que dá certo. Tem dia que dá muito errado. Mas acho que isso é ser mãe, não?

Esse post não tem receita! Sorry. Nem com coentro nem com jiló muito menos com caju.

Beijos,

Patricia

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