Dia das mães: sabores de Heloísa Schurmann

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Heloísa almoçando em Okinawa, no Japão, com amigos na Expedição Oriente

Dia das Mães. Pense num momento tenso à mesa com os filhos?

Pense naqueles dias em que a criança faz birra com o que é servido, joga o prato de comida no chão, regurgita o feijão, faz cara de nojo para a salada.

Pense, agora, qual seria a sua reação.

Coloque as coisas na seguinte perspectiva: você está em alto do mar, a bordo de um veleiro, com quatro crianças a bordo enfrentando esses perrengues à mesa.

É lugar que não dá para fugir.

A Heloisa Schurmann, matriarca da família de brasileiros que há 30 anos atrás decidiu trocar a vida em terra pela aventura em alto mar, conta como administrou esses momentos à mesa com os pequenos. Ela passou 10 anos viajando com os filhos pequeninos e sobreviveu muito bem (rsrsrsrs) a tudo isso citado acima, dentro de um veleiro, longe de todas as facilidades  que temos nas cidades.

Família Schurmann - Foto de Divulgação - Luciano Candisani
Família Schurmann – Foto de Divulgação – Luciano Candisani

Além dos perrengues, ela conta muito mais sobre como é alimentar uma família a bordo. É uma lição de vida. Me senti pequena e mesquinha perto do jogo de cintura dela para administrar os desafios da maternidade à mesa, num simples veleiro. Ela contou muito mais sobre essa vida repleta de aventuras, desapego e coragem para a Rede HubMe.

O texto ficou longo, e peço desculpas por não trazer uma versão reduzida, mas, como disse a Helena Sordili, as palavras de Heloísa fluem lindamente e dá dó editar.

Depois, leiam também os posts, que equipe da HubMe linkados aqui abaixo, escreveu sobre este estilo de vida materna bem diferente.

Helena Sordili – Eu, ele e as crianças

Milene Massucato – Diiirce

Beatriz Zogaib – Mãe da Cabeça aos Pés

Adriana Engelmeyer – Materniart

 

Em loja de medicamento durante a Expedição Oriente (crédito de foto Pedro Nakkano)
Em loja de medicamento japonesa durante a Expedição Oriente (crédito de foto Pedro Nakkano)

1 – Como é organizar a alimentação da família para viagem em alto mar? O que mudou nessa organização da primeira viagem para a atual?

Há 32 anos, quando partimos pela primeira vez, era tudo bem diferente. Apesar de termos nos preparado por 10 anos para encarar aquela aventura, tivemos que “aprender” algumas coisas no decorrer da viagem (rs). Até porque, inicialmente, nós iríamos até o Caribe, pois essa era a nossa promessa. Mas, durante a viagem, fizemos um “pequeno” ajuste nos planos e esticamos o roteiro e o tempo de viagem: demos a volta ao mundo numa aventura que durou 10 anos (rs)! Impressionante notar como tudo mudou em pouco tempo. Antes, menos lugares tinham uma infraestrutura boa para compras, mas, ao mesmo tempo, os recursos naturais eram muito mais ricos. A gente não encontrava em todas as paradas um mercado legal, mas conseguia pescar em qualquer ponto, com facilidade, por exemplo.

Hoje, temos mais oferta de locais melhores estruturados, facilitando o abastecimento constante da despensa do veleiro. Por outro lado, já passamos por trechos que, antes, era facílimo pescar e, dessa vez, permanecemos por um longo tempo sem conseguir garantir um peixinho sequer.

2 – Vocês fizeram muitas mudanças no cardápio nesse últimos anos?

Não mudamos tanto. Sempre tivemos uma alimentação mais saudável. Frituras a bordo era um risco e ainda é. Da primeira viagem até a Expedição Oriente, permanecem muito presentes em nosso cardápio peixes, arroz integral ou 7 grãos e frutas. Além de uma variedade de frutas e sabores! As mudanças de cardápio ocorrem mais pela influência de cada cultura. Eu nunca tinha usado a Raiz de Lótus (que cresce embaixo d’água e parece uma grande batata) na alimentação. Com a Expedição Oriente, chegamos pela primeira vez na China e, aqui, descobrimos que tanto a flor quanto a raiz de Lótus são comestíveis e fazem parte da culinária chinesa, inclusive por ser muito saudável, rica em vitaminas e minerais etc.

Então, preparei uma salada de Lótus, que também leva atum, cenoura e alface. E assim inclui uma nova, leve e gostosa receita leve no nosso cardápio.

(Crédito de foto: Arquivo Pessoal)
(Crédito de foto: Arquivo Pessoal)

 3 – Quem cozinha na viagem atual?

Olha, a bordo, todos precisam se arriscar na cozinha, mesmo que não seja com tanta frequência (rs). Eu e a Erika somos as que cozinhamos mais. Porém, desde a primeira viagem, o Vilfredo é um grande companheiro de cozinha. Até hoje, ele faz a alegria da tripulação com o famoso Macarrão do Capitão! Às vezes, um tripulante decide cozinhar e, neste momento, saem pratos deliciosos. O Wilhelm prepara os melhores sushis e sashimis, e o Heitor é um mestre na pizza.

Vilfred cozinhando o macarrão do capitão
Vilfredo cozinhando o macarrão do capitão

4 – O que vocês comem? Têm arroz, feijão, comida à vácuo, enlatada? Como conseguem comida fresca?

Temos geladeira, freezer e despensa para estocar todo o tipo de alimento, de acordo com a validade. Esse estoque é renovado em cada ponto da viagem, dentro do que é viável. Assim também é com a comida fresca. A dupla arroz e feijão continua firme no nosso cardápio e, recentemente, em Saipan, promovemos uma troca de experiências gastronômicas com um grupo de japoneses. No veleiro Kat, eles prepararam carpaccio de polvo, sashimi, tofu, somen e outras delícias da culinária japonesa. E nós retribuímos oferecendo nosso típico arroz e feijão.

Temos ainda uma horta a bordo, e o meu neto Emmanuel, que está na expedição conosco, a mantém com manjericão, salsa, cebolinha, menta e  coentro. 

Heloisa com o neto Emmanuel, responsável pela horta orgânica da Família Schurmann (Foto de Eduardo Talley 4)
Heloisa com o neto Emmanuel, responsável pela horta orgânica da Família Schurmann (Foto de Eduardo Talley)

5 – Pois é, soube dessa horta orgânica. Como os alimentos reagem à salinidade?

Ela reage bem à salinidade e às extremas temperaturas, desde calor até a gelada Antártica. Ela é uma das inovações da Expedição Oriente. São duas estruturas especiais que funcionam como pequenas estufas, capazes de proteger da salinidade do ambiente, mas também de ventos fortes e tempestades, por exemplo. Na nossa horta orgânica, temos aqueles segredinhos que dão um toque e um sabor todos especiais aos pratos: ervas e temperos, como aloe vera, manjericão, alecrim e menta. Desde que partimos do Brasil, em 21 de setembro de 2014, nossa horta orgânica só teve de ser desfeita uma vez, no finalzinho do ano passado, por causa das restrições da Nova Zelândia e da Austrália. Mas, logo depois, retomamos nossa horta e voltamos a contar com temperos frescos, plantados e cultivados a bordo.

Heloisa e Vilfred experimentam soba no Japão
Heloisa e Vilfredo experimentam soba no Japão

6 – Qual o maior desafio de cozinhar em alto-mar?

O maior desafio de cozinhar no veleiro é o balanço do mar, que exige adaptações importantes na cozinha. Nosso fogão, por exemplo, conta com bocas que prendem as panelas, além de uma estrutura que se move de acordo com o balanço do veleiro. Esses detalhes são importantes para a segurança de quem está cozinhando. Já imaginou uma panela de água fervendo, para o preparo do macarrão, virando em cima do cozinheiro? Deus nos livre!

Heloisa e Vilfred aprendem a fazer peixe durante a viagem
Heloisa e Vilfredo aprendem a fazer peixe durante a viagem

7 – Quando viajou com os meninos ainda pequenos e a Kat, havia momentos deles, à mesa, de “não gosto disso”, “não quero comer isso”, para as refeições que vocês faziam em alto mar? E como você lidava com a recusa das crianças?

Todos os quatro sempre foram bons de garfo. E, se não fossem, aprenderiam a ser (rs). Afinal, quando você está no “meio do nada”, ou melhor, no meio do oceano, a milhas de distância de qualquer trecho pequeno de terra, não tem muita escapatória, né? Não dá para dizer “não gosto disso, vou na esquina comprar um lanche ou pedir uma comida chinesa no delivery” (rs). A Kat foi quem teve mais dengo com comida. Ainda assim ela me dizia: “Se eu não comer isso (batata doce), vou ficar com fome, né”? “Com certeza”, eu respondia. Com coragem, ela comia, mesmo não gostando.

Heloísa no mercado de peixe em Xangai, na China
Heloísa no mercado de peixe em Xangai, na China

8 – Como foi para os meninos, quando eram pequenos, a Kat, experimentarem comidas diferentes? Quais foram as comidas mais diferentes que vocês já provaram? 

Quando a gente adotou esse estilo de vida, todos nós, incluindo as crianças, assumimos naturalmente nossa paixão pelo novo, pelo inédito. É isso que nos move em todos os sentidos, a descoberta do que, até ali, era desconhecido. E isso sempre esteve presente nas crianças também. Elas cresceram descobrindo literalmente o mundo. E essa descoberta passa por hábitos, cultura e, claro, sabores. Uma das coisas mais bacanas de visitar um local é experimentar temperos, frutas e legumes típicos. Na China, foi a Raiz de Lótus. Em Guam, pela Expedição Oriente, encontramos no mercado um vegetal chamado de Jícama, parecida com uma batata, mas tem textura e sabor parecidos ao da maçã. Esse vegetal é bem tradicional no México e chegou no Oriente pelos espanhóis. 

 Além dos sabores das localidades, as árvores frutíferas são o melhor mercado. Recentemente, ganhamos dos amigos feitos em Mangareva, 150 toronjas, 32 mamões e 5 cachos de bananas (além de várias aboboras). Tudo colhido por um povo extremamente carinhoso, que nos recebeu de braços abertos em sua pequena e isolada ilha no meio do Pacífico. É emocionante quando a gente se depara com a riqueza da natureza e a generosidade do ser humano em um mesmo momento!

9 – Qual foi o período mais longo que vocês ficaram navegando sem descer em terra e como faziam para reabastecer a despensa?

Cerca de um mês. Os cálculos adequados de abastecer de frutas e verduras frescas, alguns enlatados e congelados e a pescaria em alto mar, possibilitaram que a despensa atendesse adequadamente nossa demanda, mesmo para um período mais longo de viagem.

Desde nossa primeira viagem, o mar também é uma importante fonte de alimento. Tomamos o cuidado de pescar o essencial para a alimentação. Precisamos de um peixe para alimentar toda a tripulação? Então, não tem porque pescar dois. Rumo ao Japão, por exemplo, pescamos um atum de aproximadamente 20 kg. Um presentão que alimentou toda a tripulação!

Quero apenas aproveitar essa questão para reafirmar que a nossa pesca é para o próprio consumo, sempre respeitando espécies ameaçadas e restrições locais. A natureza é generosa com quem respeita e cuida dela. Não fazemos pesca submarina.

(Foto Arquivo Pessoal)
(Foto Arquivo Pessoal)

10 – Vocês têm ajuda de nutricionista para o cardápio ou seguem o paladar de vocês?

Os dois. Contamos com dicas de nutricionistas para que nossa alimentação atenda adequadamente nossas necessidades, considerando inclusive as atividades e esforços físicos envolvidos numa aventura como a Expedição Oriente. Mas isso sem esquecer das nossas vontades e paladar, né?

Quem sobrevive dois anos e meio navegando sem uma fatiazinha de bolo de chocolate, hein (rs).

(Crédito de foto: Arquivo Pessoal)
(Crédito de foto: Arquivo Pessoal)

Pois é, Heloísa, quem será que consegue?

Foi uma honra poder conhecer detalhes dessa incrível mãe. Caso você ainda não conheça a Família Schurmann, visite-os nas redes sociais deles, conheça a história desses brasileiros inquietos e desbravadores e acompanhe a Experdição Oriente, está emocionante:

No Facebook: https://www.facebook.com/familia.schurmann

Site da Expedição Oriente: http://www.expedicaooriente.com.br/

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6 Comments

Lele

A gente nem imagina como as pessoas se adaptam e vivem em condições diferentes das nossas ne?
Amei seu viés da conversa!
bjsss
Le

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Beatriz Zogaib

Demais!!!! Eu sou super chata pra comer, e essa entrevista foi um estímulo e tanto… Paixão pelo novo? Meu Deus, como isso deve ser legal… Imagine saborear tanta coisa nova? E achei o máximo acompanhar um pouco da rotina na cozinha através das fotos! Uma delícia de post Pá!!! Parabéns pelo viés!
Beijos

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