Comer na frente na TV

Depois de entrevistar o doutor Carlos Alberto Nogueira de Almeida, diretor do departamento de nutrologia da Associação Brasileira de Nutrologia, há duas semanas para uma reportagem, fiquei incomodada com a resposta incisiva dele sobre uma questão comum a muitas famílias (me incluo nesse grupo): colocar as crianças na frente da TV durante as refeições a fim de distraí-las e vermos o prato infantil ficar vazio.

A resposta do nutrólogo foi assustadoramente ta-xa-ti-va e mais ou menos assim: Bebês ou crianças não devem ser distraídas durante as refeições. Nunca, jamais, em tempo algum.

– Af! Socorro!!!!

– Pode aviãozinho?
– Não.

– Então, um brinquedo na mesa?
– Não.

– Fantoches?
– Não, não não.

– Socorro, doutor! Menos, vai! Afinal, quando eles estão distraídos, esvaziam o prato, nem veem o que comem.
Então chegamos ao XIS da questão: Não ver o que come, não prestar atenção na comida. Porque isso é um problema:

1) Para quem está sendo introduzido ao novo mundo da alimentação é realmente preocupante não saber nem aprender o que se está mastigando, saboreando. Não consigo me ver em Taiwan, comendo um doce feito com semente de vitória-régia, algo que nunca comi na vida, sem prestar atenção na nova iguaria. Quero, nesse momento (se um dia ele vier a acontecer), estar de olhos bem abertos para registrar tudo.

2) Não ver o que come significa também não saber quanto come. Já disse aqui que crianças pequenas têm uma capacidade gástrica pequena. Montanhas de arroz e feijão, em prato fundo, além de desanimadoras, podem induzir à obesidade. Estudos têm mostrado a ligação entre aprender a comer grandes quantidades ainda na infância com manter o hábito na adolescência e na vida adulta. Comer demais pode levar à obesidade. O problema pode gerar doenças, como a diabetes.

3) Comer assistindo TV é ruim. Percebo isso com os meninos, aqui em casa. No almoço, a TV está sempre desligada. O foco está na mesa. Não necessariamente na comida, mas na conversa, no que aconteceu pela manhã, no que poderá rolar durante à tarde. À noite, a TV está quase sempre ligada. Os meninos nem sequer olham para o prato. Miguel é praticamente abduzido pela tela. A comida fica ali, esfriando, enquanto ele está vidrado no Mistureba. Percebo que os dois já criaram o costume, já se tornou um hábito problemático e por minha culpa, máxima culpa. Achei que as refeições rolariam com mais tranquilidade se a TV estivesse ligada. Ledo engano. No almoço, sem TV, eles comem melhor porque não são abduzidos para fora da mesa. À noite, as garfadas vão para a boca sem que os olhos se virem para o prato.

Nem tudo está perdido. Já combinei que os jantares serão sem TV pelo menos três dias na semana. Não vou tirar tudo já que a culpa não é de um garoto de 4 anos nem de um menino de 8 anos. Houve reclamação, chiadeira, claro! Mas, na semana passada, correu tudo bem. Na verdade, foi ótimo. Silencioso (tanto quanto um jantar com duas crianças pode ser silencioso), feliz, sem as clássicas reclamações e pedidos eternos de “Miguel, come!”, “Samuel, come!”. Eles simplesmente comeram porque estavam, além de famintos, centrados na refeição e não na TV.

4) Comer com distração, aprendi com o nutrólogo e comprovei na semana passada, é aprender que a hora da refeição é hora de brincar, de ver Padrinhos Mágicos, menos de, simplesmente, comer.

Vocês sabem que sou radical com poucas na vida (como a amamentação exclusiva, por exemplo). Com a maioria das coisas da vida sou mais maleável porque sei que há dias que são noites. Há dias que a criança só come se o chatão do Barney (como diz a Lili Ferrari) estiver cantando todo meigo na frente dela. Em outros, ela está menos colaborativa, mais irritada. Um dia nós, adultos, estamos com a paciência vertendo água tal qual as Cataratas do Iguaçu. No outro, a paciência está tão curta, tão seca, que vendemos a alma à babá eletrônica em troca de minutos de tranquilidade e barriga cheia.

Mas o que me pega nessa história de distração na hora da comida é a questão da construção do hábito, como disse Dr. Carlos. O que será de crianças acostumados a comer diante da TV, sem prestar atenção no que o garfo espeta e em quantidades que não notam? Quando adultos, será que eles vão saber apreciar uma comida num ambiente calmo e tranquilo ou só serão capazes de engolir comida padronizada das ruidosas praças de alimentação dos shopping centers? A pensar.

beijos da Pati

PS: A foto de abertura do post está numa matéria do http://www.clevelandleader.com/ sobre TV, crianças e alimentação (em inglês).

5 Comments

Letícia Volponi

Olha, eu também acho que lugar de comer é na mesa, com a família e sem TV. Claro que há exceções em um dia de churrasco, casa cheia, aniversário, fica sempre mais difícil controlar, mas também faço meu mea-culpa. eu e o marido adoramos futebol e às quartas, para ver o jogo, pedimos pizza e comemos em frente à TV. agora a Laura encasquetou que se o jantar é pizza, é hora de ir para a sala. Ela não presta atenção na TV ainda, mas confesso que acho o hábito ruim…

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Jowzinha

Oi, Pati.
Axei interessante essa dica do médico principalmente p suas crianças… Várias vzs já tentei fazer isso a mim msma, adulta e é legal…
Só q infelizmente, n consigo me desligar da tv na hora q vou comer axo q pelo fato de cozinhar p mim, p comer sozinha… Dificilmente tenho alguém p comer comigo… =(
Então acredito q uso a tv p axar q tô com alguém. Mas é bom msm durante alguns dias a pessoa se desligar disso!!!

=** da Jowzinha!!!

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Comer para Crescer

Oi, Jowzinha.
Sabe que quando estou sozinha, sem as crianças e maridón, também não consigo comer no silêncio absoluto. Preciso ligar a TV para "ter uma companhia". A deliciosa balbúrdia das crianças me faz falta. Mas que tal trocar a TV pelo rádio (o único que, aliás, funciona em dias de apagão?).
Vamos tentar?
beijos da Pati

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Jowzinha

Boa, idéia Pati… Vou tentar qualquer dia. Na verdade, eu costumo fazer isso qdo vou almoçar sozinha na rua ou qdo to num cachorro quente com meu namorado. É ótimo!!!
A refeição fica mto divertida!!!

=** da Jowzinha!!!

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Mônica Brandão

Meninas, preciso confessar que para mim isso foi um grande problema. Adoro televisão e toda a minha vida comi na frente dela. Aliás, para mim, começar a assistir um filme está condicionado a começar a comer. Tive de mudar isso, lógico, com MUITO esforço. E acabei descobrindo que comer na mesa, conversando, pode ser muito legal. Faço isso justamente para criar um hábito bom nas meninas. Mas às vezes, divido um prato de macarrão com a Isabella no sofá assistindo Discovery kids sem culpa. Porque aí vira um evento especial, tipo, nós duas fazendo uma coisa diferente…
beijos

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