Arroz, feijão, ovo e uma mãe desnecessária

mãe desnecessáriaArroz, feijão, ovo frito

Meu objetivo dentro da maternidade é ser uma mãe desnecessária.

Pra mim, que sempre quis manter os filhos debaixo das minhas asas, é uma meta bastante ousada. Há alguns anos, ela seria impossível de ser alcançada.

Com os filhos adolescentes, não tenho outra opção a senão ser desnecessária.

Ser desnecessária é ir, aos poucos, saindo de cena do cotidiano deles para que eles possam assumir as obrigações, com seus deveres e, claro, os direitos como cidadãos do mundo. Serem plenamente capazes de assumir as consequências das próprias escolhas.

Ser desnecessária traz o benefício de se eles se tornarem autônomos, confiantes, para tomarem decisões por conta própria, sem que eu seja acionada a cada 20 minutos.

Perto e longe

Ser uma mãe desnecessária não é ser negligente com os filhos. É estar perto, ao alcance da mão, do celular, do telefone, em momentos de angústia, de insegurança, de saudade.  É estar pronta para dar acolhida nas horas de sofrimento e bronca, em momentos de vacilo.

Ao mesmo tempo, é estar longe o suficiente para que meus filhos possam sustentar a vida autônoma que todos cidadãos deveriam ter a possibilidade de desfrutar. Como por exemplo, a vida que eu desfruto. Sou livre para fazer minhas escolhas, sustentar as consequências sem precisar da opinião da minha mãe para me sentir segura.

A psicanalista Márcia Neder escreveu em um artigo  que “ser “desnecessária” é não deixar que o amor incondicional de mãe, que sempre existirá, provoque vício e dependência nos filhos, como uma droga, a ponto de eles não conseguirem ser autônomos, confiantes e independentes. Prontos para traçar seu rumo, fazer suas escolhas, superar suas frustrações e cometer os próprios erros também. A cada fase da vida, vamos cortando e refazendo o cordão umbilical. A cada nova fase, uma nova perda é um novo ganho, para os dois lados, mãe e filho.”

Descolamento

Desde que os meninos nasceram, preocupe-me que eles sejam autônomos, confiantes e independentes. Mas, nem sempre, as minhas ações são nesse sentido. Ainda me pego perguntando se escovaram os dentes, tomaram banho, se têm lição de casa.

Quanto mais tempo eles tiverem esse alerta que vem de fora, uma espécie de HD externo, mais devagar amadurecem para o auto-cuidado, para as responsabilidades com as obrigações da escola, para serem livres.

Ao notar as minhas ingerências no cotidiano deles, fui notando o quanto estou fora da meta. Fui sendo alertada para me manter à distância, entendendo qual é a minha obrigação e qual é a deles.

Estou aprendendo a promover o meu descolamento dos meus filhos. Tem sido devagar, mas permanente e sustentável. O caminho tem sido devagar para que eu possa me sentir segura, para confiar na capacidade deles em se virar nos perrengues simples do cotidiano, como preparar um arroz, fritar um ovo e esquentar feijão.

Tive compromissos e não havia refeição pronta. Tinha comida na dispensa para ser preparada. Eles deram conta. Fizeram almoço (arroz, feijão e ovo frito). Se esbaldaram e lavaram a louça, limparam o fogão e varreram o chão, porque sabem que esta é a obrigação deles. Fizeram sem que eu precisasse mandar. 😉

Assumo que achei ótimo. Me senti mais livre! E eles, confiantes.

A mãe desnecessária está surgindo! Torçam por mim. Torçam pelos meus filhos.

Este post não tem receita de arroz,  nem de farofa de feijão para adolescentes ou bolo sem glúten maravilhoso.

Também não tem receita de como lidar com os filhos. Sei, de vez em quando, a lidar apenas com os meus. E olhe lá!

Beijos,

Patricia

 

 

 

 

3 Comments

Rosangela Santos

Muito bom o texto,esou tentando fazer isto também mas muitas vezes tenho que enfrentar o julgamento dos que pensam que devemos fazer tudo para os filhos .um bj

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Patricia Cerqueira

Sim,Rosângela. Tem gente que acha que somos folgadas ou negligentes por deixar que os filhos façam eles o que precisa ser feito.
Muito bom seu comentário.

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Gabis Miranda

Sempre digo que sofro da síndrome do ninho vazio antecipadamente. rs Mas gosto do conceito da mãe desnecessária. Olha, eu tento diariamente fazer isso. Às vezes é difícil. E eu exercitei nas últimas semanas quando estava disposta a fazer o Benjamin a tomar banho sozinho. No fim, ele chegou um dia e falou: hoje vou tomar banho sozinho. Assim do nada. No dia em que ele escolheu e se sentiu bem com sua escolha. Tomou e eu vi que a cada dia vou me tornando desnecessária. Tenho sentimentos controversos, ao mesmo tempo que dói, acho o máximo estar criando pessoas que sabem fazer escolhas, saberão se virar e estão se sentindo seguros para isso.

Adorei o post!

Beijos

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