A criança e o prato de comida – parte 2 (como lidar com seletivos)

Hoje é dia de conhecer um pouco sobre as crianças saudáveis com apetite limitado.

Segundo o médico Benny Kerzner, algumas crianças nascem com pouco apetite. Simples assim.  São saudáveis, mantêm o crescimento dentro da média (se estão abaixo da média, mas crescem com constância e ficam pouco doentes também está tudo bem).

Mas a preocupação dos pais com o apetite limitado do filho, embora proporcional ao tamanho da criança, torna-se um risco. Essas crianças podem se tornar vítimas “de métodos coercitivos de alimentação”. É uma expressão forte que significa: fazer a criança comer à força. (Não fiz isso, mas, confesso, que quase!). Esse tais métodos coercitivos podem prejudicar a criança, é claro. Quem gosta de fazer algo sob ameaça? Já vi mãe colocar o chinelo na mesa, do lado do prato de comida, e ameaçar de bater na criança se ela “não comesse tudo!”. Clima, ótimo para comer algo que não se está a fim, né? Então,  ao invés de comer, pode acontecer o contrário.  Ela não vai comer.

O médico diz que tal preocupação dos pais pode ser conduzida de forma inadequada, principalmente por expectativas irreais de crescimento da criança, mas consideradas satisfatórias para os adultos. “O crescimento, ou ganho de altura da criança deve ter como base a altura média dos pais”, diz o médico.

Se o medo dos pais é a desnutrição ou o comprometimento do crescimento e do desenvolvimento, para evitar que a falta de apetite termine em cenas de quase ameaças, pancadaria ou tortura psicológica, Kerzner sugere ao pediatra pedir exames para verificar a presença de doenças e até de desnutrição e “pensar em alguma suplementação alimentar para afastar os medos familiares e reduzir uma tensão desnecessária.” Ou seja, tratar a família via a criança.

Mas antes de medicar (por favor!), Kerzner diz que, no caso da criança com apetite limitado, o foco do tratamento está em educar os pais e outros cuidadores sobre as expectativas adequadas para a alimentação, crescimento e nutrição.

Ele oferece uma tabela com princípios básicos da alimentação infantil (eu a considerei quase como um plano de guerra ou um plano de dieta da semana que a gente coloca na porta da geladeira).

O médico destaca a importância da aplicação desses princípios de forma coerente, o que significa levar em conta a individualidade de cada criança, a cultura, o tempo e até o tipo de alimentação. É um plano geral, mas que deve ser adaptado a cada caso.

Princípios gerais da alimentação infantis

(ou sugestões para ter uma refeição sem o prato voar pelos ares)

  1. Manter limites adequados (algo como: “o prato não tem pernas, portanto ele fica sobre a mesa, se sair da mesa, o prato não vai atrás”).

a. O pai decide onde, quando e que a criança come (essa regra não funciona tão facilmente com adolescentes)

b. A criança decide o quanto se come (essa é uma regra universal e tem de virar mantra para nós)

 

2. Evite distração

a. O horário da alimentação deve ser livre de ruídos e distração (então, TVs e outros eletrônicos desligados. Sorry!)

b. Use uma cadeira alta para ajudar a criança a ficar limitada ao ambiente da alimentação (será que amarrá-la no cadeirão é uma prática coercitiva?)

c. A cadeira da criança deve estar pertinho da mesa, e seu filho deve ser encorajado a ficar sentado durante a refeição (encorajar a ficar sentado!! Eu consigo que o Miguel fique sentado sempre que inicio uma conversa amistosa com ele, perguntando coisas sobre o SuperMario, por exemplo!)

d. Os pais podem oferecer um brinquedo para a criança ficar sentada, mas o brinquedo deve ser retirado assim que a refeição começar.

  • 3. Comer para estimular o apetite

a. Dê intervalos de 3 a 4 horas entre as refeições (essa dica é ótima. Se a criança já tem um apetite limitado, melhor evitar os snacks entre as refeições para não roubar a pouco fome)

b. Evite dar lanches, como suco, leite, biscoitos, pães, bolos. Ofereça apenas água para a sede (Ui! Essa me pegou. Mas entendi o médico. Pode dar um lanchinho. MAS NADA NO ESTILO BRUNCH! Ok?)

c. O tempo e a frequência das refeições infantis deve coincidir com as refeições dos pais (ou quantas refeições a agenda da família permitir).

  • 4. Mantenha uma atitude neutra

a. Não faça folias nem recorra a brincadeiras como, por exemplo, fazer aviões para a boca (A primeira eu concordo, mas os aviõeszinhos são legais)

b. Não fique com raiva nem aparente destempero (Keep Calm!)

  • 5. Limite de duração da refeição (gostei dessa, viu!)

a. A criança deve começar a comer em até 15 minutos do início da refeição (não comeu, comesse, como dizia a minha mãe)

b. As refeições devem durar entre 30 e 35 minutos.

  • 6. Sirva alimentos apropriados à idade

a. Ofereça alimentos adequados com o desenvolvimento motor e oral da criança (Não dê milho cozido na espiga se ela ainda não tem dentes nem dê refrigerante para bebês, pelo amor!)

b. Use porções razoavelmente pequenas, do tamanho do punho da criança (Também adorei essa, porque mostra que criança come pouco, afinal tem estômago pequeno como já dissemos aqui!)

  • 7. Apresente novos alimentos sis-te-ma-ti-ca-mente

a. Respeite a tendência da criança à neofobia (medo do novo) e ofereça um alimento repetidamente -entre 10-15 vezes-, antes de desistir

b. Recompense o consumo de alimentos com parabéns!

c. Mas não use a comida como uma recompensa por bom comportamento

  • 8. Incentive independência:

a. Desde de sempre a criança deve ter sua própria colher

  • 9. Tolera a bagunça que a criança pequena costuma fazer

a. Use babador ou coloque um plástico sobre o cadeirão ou assento tipo booster

b. Não irrite a criança, limpando a boca com um guardanapo após cada gole (hahahaha, essa é para a Mônica)

 

Dito isso, sugiro colar os princípios da alimentação da geladeira. A gente sabe boa parte deles, mas sempre é bom relembrar.

Beijos,

Patricia

 

Post originalmente publicado em outubro de 2010

21 Comments

Fabiana

Patrícia, obrigada pelo post.
Acabei encontrando esse site por acaso mas parece coisa escrita pra mim.

Minha bebê de 6 meses e meio simplesmente NÃO ABRE A BOCA para comer.

Estamos ainda na papinha de frutas mas se irrita e chora.

O pedi sugeriu não dar a mamadeira em seguida. Só oferecer no horário da próxima mamada. Dessa maneira ela não ficaria com fome e aceitaria a fruta.

Porém, estamos com essa tática há 15 dias e parece que está cada dia pior.

Já oferecemos maçã, banana prata, mamão papaia, pêra e goiaba.
Nada.

Pensei em demorar mais ainda para oferecer a fruta e deixar ela mais com fome.

O que vc acha?

Desde já, agradeço a atenção.

Estou imprimindo esse post para deixar como base la em casa.

Bjos, Fabiana.

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Comer para Crescer

Oi, Fabiana.
O jeito é ir conversando muito com o pediatra, pensando com ele em outras táticas, porque essa fase é dureza . Sugiro que vc leia uns posts que a Lia, do blog Um, Dois, Três saco de farinha, fez sobre a saga dela em introduzir papinha para Emília. Ela passou pelo mesmo perrengue. Desde já, quero dizer para você ter calma e pensamento positivo. Quando algo não sai do jeito que a gente imagina, a gente vai ficando tensa antecipamente. Mantenha a calma e a sua filha vai ficar tranquila. Lembre-se que ela não sabe comer. Existe uma fase na alimentação chamada período de transição, é quando a criança sai do leite materno para a papinha. Tem esse nome porque é mais ou menos para a pessoa, que comia apenas e tão somente lasanha nos últimos seis meses, se acostumar a comer maçã, banana, mamão, pera, goiaba e por aí afora. O normal e esperado é que a pessoa não aceite MESMO esses novos sabores! Já li que esse período de transição pode demorar entre um e dois meses, dependendo da criança. Então, querida, força. Porque dias piores virão (hehehe). Ela vai ter 2 anos e ficar inapetente. Vai ter 5 anos e ser neofóbicas. Ter 15 anos e só desejar porcaritos. Ou seja, a batalha é longa. Endurecer, sem perder a ternura jamais!
beijos e boa sorte!

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Comer para Crescer

Fazer pressão é básico, né? Exercito esse básico dia sim e outro tb.
beijos
Patricia

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flávia

” evitar que a falta de apetite termine em cenas de quase ameaças, pancadaria ou tortura psicológica,”

kkkkkkkkkkkkkk

Imagina! De onde o médico tirou isto? Isto não existe!!!!

Deixa ele pegar uma criança de 3 anos que passa uma semana só tomando líquido! A gente estressa sim!
Ah! Lembrei de uma piada antiga…
(Diante de uma criança que não come… A mãe: “come senão me mato!”)

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Comer para Crescer

Flávia, o médico esqueceu de dizer que as ameaças, pancadarias e tortura podem acontecer entre os pobres pais que tentam fazer o filho comer rsrsrs…
beijos
Mônica

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Adriana Fontoura

Olá,
primeiro, parabéns.. este site é muito interessante.
Em segundo lugar gostaria de saber a partir de que idade estes princípios podem ser usados??? Tenho um “pequeno” de 1 ano e 2 meses e ele simplesmente recusa qualquer comida de sal desde a última semana, sempre foi muito bom de garfo… Estou em pânico, não sei mais o que fazer…minha dúvida é principalmente sobre o princípio 5… o que faço, se ele não comer em 15 minutos???
Obrigada!

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Comer para Crescer

Oi, Adriana.
Você já passou com ele no pediatra para saber se não há uma gripe enrustida por aí? Se não tem gripe, resfriado ou qualquer outra doença, lembre se nada de novo e diferente aconteceu nos últimos dias para afetar o comportamento dele.A Mônica já escreveu vários posts sobre as fases de pouca fome da Úrsula. Se você escrever o nome Úrsula na pesquisa poderá ler os posts dela com dicas para sobreviver a esses períodos. Sobre os príncipios indicados pelo Dr. Kerzner, é importante notar (está escrito logo no início dos príncipios) que eles devem ser adaptados à realidade familiar. Mas, se a criança não deu indícios de fome até 15 minutos depois da comida servida, pode não estar mesmo com fome naquele momento. Espere e volte a oferecer depois de um tempo. Ofereça suco natural, iogurte (se ele já toma leite de vaca), frutas. Mantenha a alimentação o mais saudável possível e o mantenha hidratado. E diminua o pânico. Eles notam e a gente acaba se tornando refém da inapetência infantil. Acho que este post http://www.comerparacrescer.com/2010/09/28/meu-filho-nao-come-x-obesidade-infantil/, feito pela MÔnica, essencial. Leia.

beijos e siga em frente porque, vc, com certeza, é uma mãe maravilhosa e seu pequeno vai voltar a comer.
Patricia

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Adriana Fontoura

Pessoal do blog, em especial Patrícia…
Muito obrigada… conheci o blog em um momento que eu estava quase doida pois meu pequeno não queria saber de comer… Graças a Deus isso foi só uma fase, hoje os princípios gerais da alinentação infantil, já fazem parte do nosso dia-a-dia e posso dizer que funcionam…
Obrigada, mais uma vez pelo carinho com que me trataram… o blog é fantástico, com seriedade, mas sem perder a ternura! Leitura obrigatória para todos os pais, principalmente os de primeira viagem como nós..
Adriana Fontoura

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silvia

Olá,este site é muito interessante.
Tenho uma filha de 11anos e um menino de7 a menina tem uma alimentação boa pois come bem mas a sua estatura é menor,ela é a menorsinha das amigas de aulas o menino tambem só que ele é ruim de comer.Ele não gosta de feijão ,o ovo só a clara mas encompensassão adora uma salada.Amenina não gosta de salada.
Não sei se é por causa da minha estatura, eu tenho 1,48 e o pai deles tem 1,65 será que é por causa da nossa estatura ?
Estou muito preocupada pois o menino tem uma estatura de uma criança de 3a4anos….
Ja levei ao medico a médica fez todos exames, constatou que ele tem um pouco de colésterol, e pediu para praticar um esprte.

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alcione braga

nao,sei mas o que fazer,meu filho nao comer nada,so gostar de tomar mamadeira sem parar,ja tentei fazer comer fruta,biscoitos ate coisa de criança como balas,pipoca mas nada disso ele aceita…
quando ele era pequeno teve uma alergia com ovo,depois de algum tempo ele engasgou o que faço peço ajuda,o que devo fazer…..grato alcione

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Comer para Crescer

Oi, Alcione.
O ideal é você levar seu filho a um pediatra especializado em crianças com paladar restrito. O profissional fará exames para saber se está tudo bem com seu filho. O profissional deve orientá-la na transição da mamadeira para a comida.
Boa sorte!
Patricia

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Andreia

Preciso de ajuda! Minha filha Ysabelly, tem dois anos, e simplesmente ela nao gosta de comer comida, só gosta de comer besteiras. Eu nao sei mas o que fazer, porque o horario das refeições dela se torna estressante tanto pra mim, quanto pra ela. Ja falei a respeito com a pediatra dela, mas a mesma nao quis passar remedio ou suplemento alimentar. Nao sei mas o que fazer, porque minha filha é fissurada no peito ela ainda mama e ainda é alergica a lactose. Me ajudem por favor!!! Obrigado.

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Vanessa daieny Souza oliveira

Boa tarde sou Vanessa mãe de luara Sofia .quando ela era bebê ela comia de tudo.ate uns dois anos .depois luara não quiz mas comer nada . só na vitamina ela não toma mamadeira e nem chupa chupeta.luara hoje está com 5 anos e ainda não quer comer . será que tem alguma clínica que posso levar lá pra ensinar ela a comer ou tratar este transtorno alimentar.sou de recife.
Estou desesperada pq ela não comer .eu não saiu pra canto nem um pq ela não comer .

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Patricia Cerqueira

Oi, Vanessa.
O paladar de nossos filhos nos dão um nó na cabeça e no coração. Luara Sofia, pelo pequeno relato que vc conta, fez o percurso natural do desenvolvimento infantil. Comeu tudo que via à frente até os 2 anos e desde então foi reduzindo o apetite e perdendo o interesse pela comida. Absolutamente normal. Você diz que ela só toma vitamina? Será mesmo que é apenas vitamina? Se for, é caso de marcar uma consulta com pediatra, psicólogo e nutricionista. Melhor ainda se tanto o pediatra quanto o psicólogo forem nutrólogos (especializados em nutrologia), para que posam fazer um check-up na saúde de sua filha e avaliar como podem te ajudar. É muito importante que você acredita que sua filha sabe comer, tanto sabe que está recusando algumas comidas.
Recomendo que você compre o livre da Gabriela Kapim, a nutricionista do programa Socorro, Meu Filho Não Come!, do canal GNT. Ele tem várias dicas e receitas muito legais. O livro é para ser lido com a criança. E as receitas serem feitas com as crianças.
A pediatra Ana Escobar sempre diz que a melhor forma de fazer os filhos pequenos comerem é levá-los para a cozinha e fazê-los nos ajudar a preparar a comida que eles vão fazer. Assim, sua filha estará recusando a comida que ela fez, algo que é sempre muito chato. A comida que preparamos é sempre motivo de orgulho para qualquer pessoa, pequena ou grande, ainda mais aos 5 anos de idade.
Por fim, ao procurar ajuda profissional, tenha em mente que você também precisa de ajuda para ensinar a sua filha a comer. O problema não está só nela.
Beijos e que a força sempre esteja com você!

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